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Origem da indisciplina - comprometidos ou compromissados?

Hoje, assistimos a uma ampla divulgação da indisciplina da criança e do jovem. Neste cenário, há pessoas que se mostram perplexas, imobilizadas e outras agindo, procurando entender, dialogar, dar limites às crianças e aos jovens, fazendo com que a disciplina seja realmente resultado do processo educativo.

A sociedade cada vez mais mostra-se individualizada, vive e convive com uma crise de valores, até mesmo ausência de alguns deles. Nossa luta, na escola, é andar na contramão desta crise. Portanto, todos devemos fazer uma reflexão profunda sobre a questão da indisciplina, uma reflexão que nos inclua como sujeitos e agentes modificadores desta situação e não como meros espectadores, assistindo a nossa própria história numa “ telinha”.

Não podemos falar da indisciplina como se esta só se manifestasse no outro, e sim sobre a indisciplina que, de uma maneira ou de outra, porém com intensidade diferente, se manifesta em todos nós.

Assim, caminhando na contramão de muitos, considerando o quanto é desafiadora para nossos alunos a vida fora da escola, e acreditando na importância do espaço escolar, nós educadores oferecemos um espaço educativo que permite ao aluno “ apropriar-se do conteúdo e do pensar”; entender o significado da trajetória da história humana até redimensioná-la; espaço onde se cria a possibilidade de ações coletivas sem abolir a autonomia e as diferenças individuais que fortalecem as relações humanas.

O chamado aluno indisciplinado é responsabilidade nossa: da família, da escola, da sociedade. Então, não podemos por egoísmo, banalizar alguns elementos que são básicos à preservação da dignidade humana como o amor, a solidariedade, a ética, o respeito ao cidadão, ao profissional, à pessoa...

Certa ocasião, foi perguntado a Paulo Freire o seguinte: “Que distinção o senhor faria entre a disciplina, a indisciplina e a autodisciplina?” E ele respondeu:

- Eu começaria por dizer que, para mim, toda a disciplina envolve autodisciplina. Não há disciplina que não gere ao mesmo tempo o movimento de dentro para fora, como não há uma disciplina verdadeira se não há a capacidade. O sujeito da disciplina tem de se disciplinar. Eu diria que há duas disciplinas, em relação às vezes contraditória, que marcam a diferença com a indisciplina. Quer dizer, na indisciplina, tu não tens autodisciplina nem disciplina. A indisciplina é a licenciosidade, é o fazer o que quero, porque quero. A disciplina é o fazer o que posso, o que devo e o que preciso fazer. Fazer o que é possível na disciplina, tornar possível o que agora é impossível diz respeito necessariamente à vida interior da pessoa. É assim que eu vejo o movimento interno e externo da disciplina. E para isso acho que a presença da autoridade é absolutamente indispensável. (1988)

Talvez, se estivéssemos presentes no momento de sua resposta à pergunta a completaríamos assim: “... a presença da autoridade é absolutamente indispensável”... e não adianta procurar tal autoridade no outro. Ela deve ser encontrada em nós mesmos. Pela nossa capacidade, competência e compromisso. Às vezes, podemos estar dificultando a solução dos problemas porque perdemos tempo em procurar a autoridade no outro, quando a situação está ali, nos olhando de frente, carecendo da prontidão de nossa ação. A origem da indisciplina é questionável, as suas causas são inúmeras. É preciso estarmos atentos e termos serenidade para fazermos as intervenções justas no momento adequado.


Estela Machado - 1998

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