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Limites:
novas questões
O presente texto versa sobre a questão dos limites na relação
entre pais e filhos, diante das modificações que vem
sofrendo a estrutura familiar. No entanto, ele não pretende
defini-los, mas sim trazer algumas reflexões sobre as possibilidades
dos limites na contemporaneidade.
Alguns autores caracterizam a contemporaneidade, também chamada
de pós-modernidade, como sendo um estado de permanente crise
na sociedade e nos laços entre e dentro de seus segmentos.
Tal crise é a herança da modernidade. A pós-modernidade
se constitui como uma crítica à modernidade, embora
não a substitua.
A pós-modernidade, gestada nos anos 50, surge na década
seguinte com a pílula, o rock, as roupas que representavam,
de certa forma, a “liberdade”, a cultura de massa, etc.
As últimas décadas têm proporcionado grandes
modificações na vida do ser humano, como podemos ver
pelos avanços tecnológicos que possibilitaram maior
conforto e o acesso a diferentes lugares de maneira veloz –
algumas vezes instantânea – através de meios
de transporte e comunicação, as conquistas realizadas
pelas mulheres no cenário do trabalho, etc. Por outro lado,
todos estes avanços nos levam a refletir e a (re) pensar
a importância do convívio familiar e a educação,
tanto na família quanto na escola, face às mutações
do mundo contemporâneo.
Desta forma, começaremos refletindo sobre a importância
da figura materna na criação dos filhos – sobretudo
nos primeiros anos de vida, período em que ocorre a estruturação
da personalidade infantil – do papel do pai com o seu amor
e a inserção dos limites, alguns anos depois.
Os pais são fundamentais para a criança, pois são
eles que servirão de modelo para as primeiras identificações.
Contudo, devemos lembrar que educar não é “modelar”.
Os pais precisam reconhecer a ajudar seus filhos a desenvolverem
o que lhes é próprio: a construção da
identidade.
Na infância, as principais normas, códigos, padrões
e modelos de conduta serão internalizados a partir do contato
da criança com os pais; mais tarde, isto lhe servirá
de base para a reafirmação de sua identidade.
O primeiro grupo de referência da criança é
a família. Para educá-la, os pais precisam ter seus
conceitos definido, bem como os objetivos que desejam alcançar,
conscientes da sociedade na qual estão educando seus filhos.
Não existem regras básicas para nortear o relacionamento
que pai e mãe devem estabelecer com seus filhos. É
preciso, sobretudo, que estejam dispostos a conhecê-los. Assim,
também os filhos tornam-se capazes de aprender com, e sobre,
os pais.
No momento em que os pais decidem como estabelecer os limites, é
essencial considerar a personalidade do filho e as diferenças
entre o casal, a fim de chegarem a um acordo sobre como lidar com
a criança, para que ela não fique exposta à
mensagens contraditórias e confusas.
Os limites devem promover a auto-estima da criança. Neste
sentido, o sentimento global de apoio que ela experimenta das pessoas
importantes que a cercam, especialmente pais e amigos, possibilitam-lhe
uma auto-estima maior.
Colocar limites é uma maneira de ajudar a criança
a modificar seu comportamento sem prejudicar sua auto-estima. Consiste,
fundamentalmente, em “delimitar o terreno”, para que
outra pessoa possa diferençar claramente o permitido do proibido.
O limite tem função protetora: impede que a criança
tenha excessivo sentimento de culpa ou remorso, evita situações
de risco ou perigo, exerce o controle de voracidade: querer tudo
do jeito que bem entende, na hora que quer, etc.
Ao fixar um limite é necessário anunciá-lo
de forma clara e objetiva, usando um tom firme. Os limites variam
de acordo com a época em que vivemos, com a personalidade
da criança e com a idade dos filhos.
Fatores
que interferem no estabelecimento dos limites
A partir de
fatores como autoridade e autocontrole, hiperprotecionismo e diferentes
formas de punição, podemos refletir como os limites
impostos pelos pais modulam o comportamento da criança e,
ainda: como os limites que nos foram ou são estabelecidos,
também determinam nosso comportamento como pais e indivíduos
na sociedade.
•
Autoridade
“A
autoridade que caracteriza a nova família parece não
empregar pressão, mas apenas uma persuasão suave.”
Na
família contemporânea há um novo código
de moral, onde a punição não é mais
baseada em violência física, mas na diplomacia dos
atos. Essa nova moral utiliza discursos, reflexões, amor-próprio
ferido e remorso. Os castigos não desapareceram: apenas deixaram
de ser físicos e tornaram-se mais subjetivos.
A capacidade do indivíduo de se relacionar bem em sociedade
está inicialmente ligada à orientação
que os pais – seus primeiros referenciais – dão,
no sentido de seguir regras. Para tal é preciso fazer uso
da autoridade autônoma (aqui, o temor é substituído
pelo respeito).
Pais que se utilizam da autoridade manifesta para criar e educar
seus filhos podem, no futuro, acarretar a construção
de crianças submissas ou autoritárias, dependendo
da personalidade.
Por outro lado, os que não fazem uso da autoridade com seus
filhos, acabam se igualando à criança e quebram a
hierarquia que deveria ser vigente no lar. A criança, por
sua vez, tenderá a se aproveitar da sua aparente superioridade
e poderá assumir o poder sobre os pais.
•
Hiperprotecionismo
Consiste
em considerar a criança como um ser totalmente impotente
e indefeso.
Educada sob estas condições, a criança pode
não adquirir segurança na vida mostrando timidez e
desenvolvendo uma existência apagada: sentimento de inferioridade.
Demasiada proteção durante a infância torna
o indivíduo mal preparado para a existência, sem se
sentir completamente adulto, mostrando-se incapaz de se defender
pro seus próprios meios, quando não tem mais ninguém
para o fazer.
As crianças precisam dos pais para aprender a lidar com os
problemas da vida em geral, com as resistências e a suportar
frustrações, principalmente com estes.
Hiperproteger dificulta o reconhecimento de limites pelas crianças;
e serão eles que as permitirão “andar com as
próprias pernas”.
•
Autocontrole e autodisciplina
“As
crianças precisam mais de modelos do que de críticos.” (Bettelheim – 1988)
A
aquisição de autodisciplina é um processo contínuo,
lento e tão prolongado que pode parecer ter sido insignificante.
O melhor e, provavelmente único, modo de nos tornarmos pessoas
disciplinadas é nos espelharmos em alguém que admiramos.
Muitos pais tentam ensinar autocontrole por métodos que despertam
mais a resistência do filho do que o prazer em aprender. Há
um paradoxo no autocontrole pois este requer uma paciência
de educador; mas a paciência é uma virtude quieta,
que não causa uma impressão tão profunda e
imediata quanto a perda da paciência.
Deve-se buscar uma educação baseada no exemplo dos
pais, na manutenção conseqüente das regras, porém
respeitando a formação do “Eu” da criança
e desejando o seu desprendimento. Assim, as regras impostas pelos
pais devem ser respeitadas por eles.
Provavelmente, adultos bem disciplinados, que vivem de acordo com
seus valores, dificilmente precisarão pregar o autocontrole
para seus filhos.
•
Desobediência e perda de limites na conduta
A desobediência
pode se originar de várias maneiras: ausência de atenção
à criança por parte dos pais, ausência de elogios
por bons comportamentos, desordens na aprendizagem, etc.
A perda de limites na conduta é ocasional, surge da situação
de intensa ansiedade – quando se carece de intencionalidade
– e, num momento posterior, é rejeitada pelo “Eu”
da criança, que experimenta culpa ou vergonha por ter agido
desse modo. (Soifer)
A perda de limite na conduta aparece desde muito cedo, por exemplo,
quando a possibilidade de engatinhar permite a aproximação
aos objetos e, por conseguinte, induz a desobediência. A emergência
da perda dos limites torna-se mais freqüente e com maior aquisição
de funções, chegando ao seu auge na primeira adolescência.
A desobediência ocorre em graus variados em todos os estágios
do desenvolvimento da criança, porém isto nada significa
para ela até que perceba que seus pais têm uma reação
de aborrecimento ou zanga. O filho então, começa a
saber o que os pais querem ou não.
À medida em que vão crescendo, testam os pais para
descobrir as discriminações mais sutis de sua disciplina.
Ao ser desobediente, o filho está pondo à prova os
seus limites ou testando novas hipóteses de reação
ao que faz.
Às vezes a criança não é abertamente
desobediente, mas não parece mostrar interesse em desempenhar
as tarefas que se esperam dela; parece não ter senso de responsabilidade.
Isto talvez ocorra por ter tido uma dose mínima de elogios
por suas realizações e teve pouca oportunidade de
fazer-se notar no mundo.
•
Formas de punição
Faz
parte da natureza da criança fazer coisas que seus pais não
querem que faça.Desde os filhos bem pequenos, os pais se
defrontam com a tarefa de controlar o comportamento dos filhos,
ou seja: cuidar do processo de disciplina dos filhos.
Ensinar a criança a seguir regras e regulamentos é
ajudá-la a adaptar-se ao mundo e a obter um comportamento
socialmente aceitável. Deste modo a criança aprende
a ter noção do direito dos outros, de seus direitos
e deveres e a respeitá-los.
Disciplina não é sinônimo de castigo. O castigo
é uma espécie de “multa” ou preço,
pago pelo desvio das regras e regulamentos estabelecidos.
Os pais são as pessoas em quem as crianças mais confiam;
são quem lhes oferece proteção e satisfazem
suas necessidades. Assim, são eles os disciplinadores mais
eficazes.
Princípios
de raciocínio moral
Nível
1: Moralidade pré-convencional – os julgamentos da
criança baseiam-se nas fontes de autoridade que lhes são
próximas e fisicamente superiores (os pais). A orientação
para a punição e a obediência depende das conseqüências
físicas de alguma ação para decidir se ela
está certa ou errada. Se ela é castigada, o comportamento
foi errado; se não é punida, estava certa. A obediência
é valorizada mas a criança obedece porque os adultos
têm o poder superior.
Nível 2: Individualismo, propósito instrumental ou
intercâmbio – a criança faz coisas que são
recompensadas e evita aquelas passíveis de punição
(se uma ação é agradável ou traz bons
resultados, ela é boa). Um elemento de controle é
a consciência das regras: deixar claro para a criança
quais são as conseqüências de obedecê-las
ou não, e depois fazer cumprir as regras de maneira firme.
Regras consistentes possibilitam crianças mais seguras e
menos agressivas.
Processo
do Controle & Papel da Punição:
Para se entender o processo de controle é preciso compreender
o papel da punição.
A punição funciona se os pais a empregam adequadamente.
Ela produzirá rápidas mudanças no comportamento
da criança. A punição mais afetiva –
que produz mudança a longo prazo no comportamento infantil
sem gerar efeitos colaterais indesejáveis ou negativos –
é aquela aplicada no início de alguma seqüência
de mau comportamento. (Gerald Petterson – 1975).
Com relação à consistência, ao ameaçar
um castigo, os pais devem estar preparados para cumprir. Caso contrário,
não é aconselhável, pois – se usado apenas
para intimidar – as regras e regulamentos que a punição
deveria sustentar, serão enfraquecidas.
Alguns autores seguem a corrente de que “castigo não
funciona”. Segundo eles, o que a criança aprende com
o castigo é que o poder faz justiça. Quando forem
grandes e fortes o suficiente, tentarão se compensar. Assim,
muitas crianças punem os pais agindo de maneira a desgostá-los.
Para esses autores, “qualquer castigo – físico
ou moral – nos coloca contra a pessoa que o atribuiu”.
“(...) o dano imposto aos sentimentos pode sr muito mais duradouro
e prejudicial do que a dor física”.
Cada criança reage de maneira diferente a qualquer castigo
(personalidade, relação com os pais, etc.), mas não
há criança que, punida, escape do sentimento de degradação.
Mesmo que saiba que está errada, sente que deve haver um
modo melhor de ser corrigida do que através de castigos físicos
ou mentais. Isto deixa as crianças ressentidas e desapontadas
com quem lhes castigou.
Um filho raramente se convence de que alguma coisa está errada
porque seus pais dizem que está. Ela se torna errada para
ele porque quer ser amado pelos pais e quer que eles pensem bem
dele. Uma vez que a melhor maneira de ser amado, a curto prazo,
é fazer o que os pais aprovam – e a longo prazo, ser
como eles – identifica-se com seus valores.
O castigo, especialmente se doloroso ou degradante, é uma
experiência muito traumática, tanto por conta do que
ele significa diretamente, quanto porque põe em perigo a
crença da criança na benevolência do pai, que
constitui a base mais firme de seu sentido de segurança.
Outra maneira que os pais adotam para corrigir seus filhos –
sem se darem conta, racionalmente – é a ameaça
de supressão de seu amor pelos filhos. Se a criança
experimenta isso como um castigo, entende – corretamente –
que o pior que um pai pode fazer é ameaçar retirar
seu afeto. Contudo, quando a criança sabe que seus pais a
amam, tem uma forte tendência a obedecer as regras disciplinares,
a fim de conservar aquele amor.
Os pais são capazes de negar o amor e o carinho que o filho
deseja, como uma reação a um comportamento inaceitável,
para poder estabelecer limites e ensinar regras e regulamentos,
ou seja, disciplinar. Porém, é essencial que tenham
a estrutura recompensa-privação. Quando os filhos
se comportam bem, os pais podem – e devem – demonstrar
seu orgulho e prazer em relação ao que ele faz. Se
ele não se comporta como os pais esperam, estes podem demonstrar
seu desagrado e aborrecimento. Ao tomar conhecimento dessa reação
negativa, a criança a interpretará como uma perda
temporária do amor dos pais.
O objetivo de um pai, na área da disciplina, deve ser aumentar
o amor próprio da criança e torná-la forte
e relevante, de modo que a impeça de agir erradamente em
sua vida.
Estela
Machado
Bibliografia:
Bee,
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Porto Alegre: Artes Médicas.
Berge, André.( 1971 ). Os defeitos dos pais. Rio de Janeiro:
Agir
Canevacci, Massino. ( 1987 ). Dialética da família.
São Paulo:
Maldonado, Maria Tereza. ( 1981 ). Comunicação entre
pais e filhos. Petrópolis: Vozes.
Medina, C. A . de.( 1974 ). Família e mudança. Petrópolis:
Vozes.
Salk, Lee.(1972). O que toda criança gostaria que seus pais
soubessem. 7ª edição. Rio de Janeiro: Record.
Winnicott, D. W. ( 1993 ). Conversando com os pais. São Paulo:
Artes Médicas.
Outros textos
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